20/12/2012
As curas para a educação
Fabio Torres
As curas para a educação
Fabio Torres
No cargo desde abril de 2011, Anna Helena conversou com exclusividade com a Profissão Mestre sobre este e outros temas, tais como o atraso na aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), as falhas na formação continuada dos professores, a importância das competições escolares e a questão de como superar o atraso escolar, apontado como um dos maiores problemas a serem corrigidos no Brasil nos próximos anos.
Profissão Mestre: O Plano Nacional de Educação já está com dois anos de atraso e ainda não foi aprovado. Essa lentidão pode prejudicar a sua execução?
Anna Helena Altenfelder: O PNE define diretrizes e metas para a educação para o decênio 2011- 2020, bem como as estratégias para alcançá-las. Trata-se de um instrumento para o planejamento da política educacional a partir de uma perspectiva de longo prazo, de modo a assegurar a construção de uma política de Estado e não de governo. O Plano Nacional traça as linhas gerais, a partir das quais estados e municípios – níveis de governo responsáveis pela oferta da educação básica – devem elaborar seus planos de educação. O atraso na sua aprovação encurta o tempo para formulação de políticas e adoção de estratégias direcionadas para o cumprimento das metas previstas. No caso da educação, o tempo se constitui como elemento essencial, na medida em que as políticas só surtem efeito em médio ou longo prazo. A morosidade na aprovação do Plano também representa um fator de desmobilização social, já que, no seu processo de elaboração, representantes dos diferentes segmentos participaram ativamente dos debates em conferências nos municípios, estados e na etapa nacional – mobilização importante para o cumprimento das metas, a qual se perde na lentidão imposta pelo jogo político.
Profissão Mestre: O que surtiria mais efeito na educação brasileira: mais investimentos ou uma gestão melhor e mais eficiente dessa verba?
Anna Helena: A educação brasileira pede, sem dúvida, uma gestão mais eficiente dos recursos, mas também não pode deixar de ter mais investimentos – e a comparação do valor investido por aluno na educação básica no Brasil com os [valores] de outros países que apresentam ensino público de qualidade reforça isso. O custo aluno-qualidade, indicador desenvolvido pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação que leva em consideração os fatores essenciais para garantia do direito à educação de qualidade, também mostra que estamos muito aquém do investimento mínimo necessário por estudante.
Profissão Mestre: Um relatório do Todos pela Educação revelou que o atraso escolar é o maior desafio do Brasil nos próximos 10 anos. O que pode ser feito para superar este obstáculo?
Anna Helena: É preciso descartar definitivamente a ideia de que a reprovação é uma estratégia que contribui para o aprendizado do aluno. Pelo contrário. A reprovação obriga o aluno a repassar os mesmos conteúdos do ano anterior, gerando desinteresse pela escola, desestimulando o estudo e causando na criança/adolescente um sentimento de inferioridade perante os pares. Ou seja, recai sobre o aluno toda a responsabilidade pelo seu fracasso escolar. Além de ineficaz do ponto de vista da aprendizagem, a reprovação onera o sistema, impede a abertura de novas vagas e em muitos casos promove a evasão escolar. Diferentes estratégias podem ser utilizadas para que o aluno que não apresentou o aprendizado esperado recupere esse conteúdo: aulas de reforço e acompanhamento pedagógico contínuo ao longo do ano são duas medidas possíveis, além da implantação de programas de progressão continuada e de correção de fluxo, que visam diminuir a distorção idade-série.
Profissão Mestre: A formação de professores no Brasil possui graves falhas. Em outros países, os educadores passam por um período de residência antes de iniciarem o magistério. Um plano como este daria certo no ensino público brasileiro?
Anna Helena: O acompanhamento e supervisão do trabalho do professor em início de carreira constituem-se como elementos importantes para a preparação docente para atuação em sala de aula. Oferecer esse suporte ao professor permite que ele ganhe aos poucos confiança e seja orientado em relação a aspectos de sua prática que precisam ser aprimorados. A residência pedagógica é um instrumento interessante na formação de professores e cumpre um pouco a função antes atribuída ao estágio supervisionado, pensado como um momento de vivência prática da teoria no último ano de graduação. Entretanto, é uma estratégia que deve ser precedida por uma sólida formação tanto em torno dos conteúdos sobre os quais ele irá lecionar como também das competências para o trabalho em sala de aula. O maior problema da deficiente formação inicial dos professores exige, portanto, uma reformulação dos currículos de Pedagogia, no sentido de promover um maior equilíbrio entre teoria e prática, que leve em conta o aluno do século XXI e as questões colocadas pelo mundo contemporâneo. Também é preciso assegurar a qualidade dos cursos de formação de professores, por meio de um monitoramento e avaliação externa por parte do Ministério da Educação (MEC).
Profissão Mestre: Por que os cursos e atividades que compõem a formação continuada dos professores nem sempre surtem o efeito desejado?
Anna Helena: Porque muitas vezes não dialogam com as reais necessidades dos professores, pautando-se naquilo que seus organizadores, seja a academia ou órgãos governamentais, julgam ser importante que os participantes aprendam, ou desenvolvam. Os processos formativos não podem se restringir apenas aos conhecimentos científicos e a uma prescrição de sua aplicabilidade na realidade educacional. É preciso levar em conta, também, as dimensões políticas e subjetivas, ou seja, devem ser planejadas e organizadas a fim de possibilitar mudanças nas formas de pensar, agir e sentir do professor. Por outro lado, a formação continuada precisa ser assumida pelos professores como uma atitude e um valor, como parte integrante e indispensável da sua atividade. É preciso que eles reconheçam a contribuição que os processos formativos podem trazer para o seu desenvolvimento profissional. Os eventos de formação continuada só são efetivos na medida em que possibilitam a construção e reconstrução de novos conhecimentos e práticas pedagógicas, a apropriação de novos recursos e estratégias para ensinar e o estabelecimento de relações mais próximas e cooperativas entre professores e alunos, bem como maior conhecimento e entendimento da comunidade na qual a escola se insere.
Profissão Mestre: A sua tese de doutorado teve como base a Olimpíada de Língua Portuguesa. Quais foram as conclusões da sua pesquisa?
Anna Helena: O objetivo do trabalho foi analisar em que medida as orientações teóricas e as atividades propostas afetam a prática e as concepções do professor sobre o ensino de produção de texto. Este material, que é distribuído a todos os professores participantes, traz uma sequência didática que orienta, passo a passo, como ensinar os alunos a produzir um determinado gênero de texto. A análise feita revelou que, ao realizar as atividades propostas, os professores puderam fazer descobertas acerca da necessidade e da importância de se partir dos conhecimentos prévios dos alunos, considerar sua realidade, estabelecer e compartilhar objetivos, planejar cuidadosamente as etapas que serão percorridas, avaliar e acompanhar a aprendizagem dos alunos. Ou seja, a experiência contribuiu para a ampliação da consciência do papel de mediador do professor. A partir disso, novos significados e sentidos sobre a importância da própria atividade no processo de aprendizagem dos alunos foram construídos pelos professores, o que gerou novas necessidades que os impulsionaram a rever sua prática, buscar novos conhecimentos, pensar em novas estratégias de ação. Enfim, a experiência despertou um compromisso de se trabalhar com os alunos aquilo que aprendeu, como apontou um dos participantes. Foi possível constatar, também, que os professores não só valorizam as orientações recebidas como também apontam a necessidade que sentem de serem orientados. Esses profissionais avaliam que instrumentos e prescrições são importantes para o desenvolvimento de sua atividade, o que desmistifica uma ideia bastante difundida no contexto educacional de que materiais didáticos fecham possibilidades da atividade.
Profissão Mestre: Como tornar a carreira no magistério algo desejável para os jovens?
Anna Helena: Tornar o magistério uma carreira atrativa passa certamente por um processo de valorização da profissão, seja em termos de remuneração, seja em termos de prestígio social. A instituição de um piso nacional pelo MEC é uma primeira medida nesse sentido, porém é preciso ir muito além. Os estados e municípios devem (re)formular os planos de carreira dos profissionais da educação, apresentando aos docentes perspectivas de ascensão profissional e desvinculando esse crescimento à saída da sala de aula (já que em muitos casos os postos mais altos são vinculados à coordenação pedagógica e direção). Também é necessário garantir aos professores condições adequadas de trabalho, que vão desde infraestrutura até formação continuada. É preciso ainda criar uma mobilização social em torno da educação, baseada na convicção de que ela se constitui como elemento essencial para transformar o Brasil no País que desejamos. Só assim – quando a educação se tornar prioridade na definição das políticas públicas, na rotina das famílias e no projeto de vida dos indivíduos – a valorização da figura do professor será possível.
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