A ilusão de uma boa aula
Cesar Augusto Dionisio
Cesar Augusto Dionisio
Você vai ao teatro. Senta-se na poltrona. As pessoas chegam. As luzes morrem. A cortina abre (ou “o pano sobe”, como se prefere falar no teatro). O palco incendeia o primeiro foco de luz. O personagem entra. Não é o ator que entra. É o personagem, possuído por uma divindade mitológica, enfeitiçado por uma varinha adestrada lá em Hogwarts, talvez a do próprio Harry Potter, abençoado pelos deuses do teatro. O ator morre para que o personagem viva e entre em cena para contar uma história. Histórias têm tempo e lugar, diferentes do tempo e lugar de quem vai assistir a peça. Acreditamos que estamos em outro tempo e lugar, transportados para bem longe da conta de telefone que venceu no dia 05 do mês passado, e também acreditamos em tudo o que é contado na nossa frente. O exterior se conecta com o interior. Fomos tão longe para nos encontrarmos. Uma longa viagem para dentro de nós a partir do que vemos e sentimos porque fomos provocados. Isto é catarse.
A produção da peça, do filme, o cheiro do teatro, o recém-chegado “3D”, o papel dos livros amarelados que, dizem, cansa os olhos mais demoradamente do que faz o papel branco – tudo isto para facilitar a catarse.
É verdade que o público do teatro está pronto, preparado, e quer acreditar que tudo aquilo é verdade. Não é. Mas aquela mentira que se torna verdade (ou aquela verdade que se torna mentira) permanecerá. O público da televisão jura, ajoelhado no milho, que os personagens da tela são reais. Real e doída é a vida de quem assiste novela. Mas ver a dor alheia, ainda que inventada, talvez alivie a nossa, ou a aumente. Sofro com Violeta quando ela chora por Alfredo em La Traviata.
A leitura de um bom livro não nos é diferente. Se for audiolivro, aí a chance da catarse aumenta e estamos prontos para cair num precipício de imaginação que anula quem somos para ouvir uma história e acreditar nela. Esse deve ser também um princípio de uma boa aula. O aluno de ensino superior que leva o chefe e a família toda para a sala de aula, discretamente escondidos entre seus fios de cabelos, não está pronto para a experiência catártica de uma aula.
Professor, torne sua aula uma catarse porque é na catarse que esqueço quem sou e aprendo (ou a aula corre o risco de não permanecer). Torne sua aula catártica ou ela corre o risco de se misturar com pensamentos que destroem a mágica da educação. Algo como: “Paguei o aluguel da minha mãe?”, “Será que ela vai terminar comigo?”, “Esqueci o gás ligado?” e “Será que fechei a porta?”.
Não gosto de celulares na sala de aula; eles quebram a ilusão. Aquele aluno que chega atrasado na sala de aula ajuda a quebrar a catarse. Sou a favor de fechar a porta e não deixar que ninguém mais entre. Não é porque “interrompe a aula”; é porque quebra a catarse, a ilusão. Numa cena de Homem-Aranha, Peter Parker chega atrasado ao teatro para ver Mary Jane, sua amada. O homem que recebe Peter Parker sugere que, primeiro, ele amarre o sapato e ajeite a gravata. Em seguida, diz: “ninguém pode se sentar depois que as portas [do teatro] estiverem fechadas. Isto ajuda a manter a ilusão”.
É isso aí: criar uma catarse na aula e convencer os alunos de que as histórias que contamos no palco de uma sala de aula são reais o suficiente para se acreditar. Tornar-nos personagens, como já escrevi em outras edições da Profissão Mestre. A regra é clara: catar-se. Descatar-se. Largar-se. Isso é catarse.
Texto publicado na edição de maio da revista Profissão Mestre
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