domingo, 20 de janeiro de 2013

Conteúdos

Conteúdos
Cesar Augusto Dionisio
Época de efervescência. Parece até que jogaram finalmente o comprimido efervescente da criatividade no copo transbordante da humanidade, e aquelas borbulhas que sobem graciosamente estão respingando em todos, todos nós. É difícil escapar: estamos todos nos tornando produtores compulsivos de conteúdo.
Nossos alunos, munidos de celulares e smartphones, navegando em redes sociais internáuticas, com um olho no Google e outro no game, estão produzindo conteúdo, sim, ainda que nem eles tenham percebido isso. Qual é o banco de imagens de um adolescente de quinze anos? Quinhentas fotos? Mil? Mil e quinhentas fotos?
Por um lado, isto é bom: José de Alencar era um no meio de bem poucos românticos. Picasso era parte de clube seleto de artistas pintores. Mozart, uma referência. Abandonamos a época dos artistas unicelulares e passamos a uma geração de pluralidade de conteúdo. Todos produzem ou podem produzir – basta dirigir-se à loja de departamentos mais próxima.
Ou não? Será que uma máquina fotográfica só faz fotografia nas mãos de um fotógrafo? É verdade que o portador de uma máquina digital já é, por definição de quem quer que seja, um fotógrafo. Aquele que esculpe, no quintal de casa, uma estátua de argila, resultado simples por ter lavado o carro no final de semana, já é um escultor. Aquele que publica um livro, qualquer livro, já é um escritor. Quem começa a ler a Bíblia em praça pública já se intitula líder espiritual. Será isto ou nada disto? Classificar tudo isso em arte ou nada deve ficar a cargo e encargo, dúvida e dívida de cada um? Quem é cada um?
Mas, se por um lado, há uma democracia de acesso dos produtores de conteúdo, que somos todos nós, há uma pergunta básica que merece ser feita: o seu álbum de casamento interessa realmente a todos nós? Porque você insiste, quer e persiste para que nós conheçamos seu vídeo de casamento, no qual eu não conheço ninguém? Não dá para fazer descer garganta abaixo aquilo que me é desimportante e que não me diz respeito. Ou dá? Será que tem mais gente produzindo do que gente assistindo? O palco está mais cheio que a plateia?
Mestre, ocupe-se em produzir conteúdo, pois é chegada a hora. Porém, use sua autocensura. Consegue eleger uma melhor forma de expor o conteúdo de uma aula? Pois, faça-o com rigor, delicadeza, intenção e método, e, se possível, com um conteúdo próprio. Disso dependerá sua habilidade de desenvolver conteúdos e da permissividade benéfica e controlada de uma boa gestão escolar.
Nossos alunos se tornaram produtores de conteúdos tão vorazes que, creio, precisamos aprender com eles. Eles nos ensinam que podemos gerar nossos próprios conteúdos e alimentar, por este meio e método, nossas aulas: assim, devolvemos a eles o que aprendemos com eles mesmos num ato de gratidão.
Ninguém produz conteúdo sem se expor. E esta pode ser uma notícia realmente muito boa. Ao tirar uma foto, o adolescente está dizendo: “estou me amando, estou produzindo, estou vivo”. E isto é bom.
Por outro lado, e por quantos lados esta questão possa ter, será que esses conteúdos todos que estão sendo gerados neste momento perdurarão? O que se ouve é uma gritaria que vem de todos os cantos, todos produzindo conteúdos. O que quero ouvir é o silêncio que virá depois para avaliar com tranquilidade as vozes que permanecerão e que serão audíveis ainda no futuro. Até lá.

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